O esporte e o conceito do Talento

Desde os primórdios da prática esportiva, um tema sempre permeia a discussão, sendo inerente a qualquer modalidade. O talento. Com o passar dos anos, sua definição e detecção foram sendo modificadas e colocadas dentro dos mais diversos contextos, em todos os países do mundo. Então para começar a escrever sobre o tema, acho fundamental definirmos o que é talento, principalmente dentro do meio esportivo.

Pegamos uma definição do dicionário Infopédia, que diz: “Conjunto de aptidões, naturais ou adquiridas, que condicionam o êxito em determinadas atividades.” Outra definição, mais aplicada ao meio esportivo, vem de William & Reilly, que em 2001, definiram o talento como “aptidão para a modalidade esportiva, inata ou adquirida, que o faz tornar-se uma excelência no esporte.”

Vamos abordar um aspecto, que pertence as duas definições, que é o talento inato ou natural. Em ambos os casos, eles classificam a possibilidade de talento inato, aquele que vem com o indivíduo desde o nascimento, sendo determinado principalmente pelo fator genético. Será mesmo possível? Condições genéticas de propensão a uma determinada modalidade que foi criada pelo ambiente? E se os ingleses, inventores do futebol, optassem por poder marcar o gol com as mãos, iria influenciar na genética do atleta talentoso?

Retornando às definições acima, se os autores dizem que o talento pode ser adquirido, entram duas condicionantes fundamentais no processo. Treinabilidade e ambiente. Dependendo dessas duas vertentes, terei um jogador talentoso ou não, certo?

Para confundir um pouco mais a discussão, temos o conceito de Dom. “Ah, fulano tem o dom para jogar futebol!”, quantas vezes já ouvimos tal frase, seja por atletas, profissionais ou torcedores. Então a busca por atletas talentosos depende de aspectos divinos ou mágicos, naquele estilo eternizado pela frase do Romário: “Deus olhou pra mim, apontou o dedo e disse, esse aí é o cara!”

Resumindo, podemos ter certeza que o talento tem diversas “caras” e pode ser abordado das mais diversas maneiras. O que pretendo deixar aqui, como conceito e opinião do autor, é a não existência do talento inato, dessa varinha mágica que toca alguém e dá uma excelência esportiva fora do comum. Esse talento, reafirmo, não existe.

Podemos entender o termo talento esportivo, como o conjunto de capacidades físicas, mentais e cognitivas, pré-existentes que, inseridas dentro de um contexto correto de estímulos e bom ambiente, podem se desenvolver a seu máximo, gerando atletas de alto nível.

Definindo a formação do atleta talentoso como dependente do ambiente e de estímulos, os profissionais da área são determinantes para essa formação. Um desenvolvimento em alto nível pode elevar o patamar do atleta, tornando-o “talentoso”, dentro do conceito geral do termo.

Um contra ponto muito defendido pelas pessoas que acreditam na questão inata do talento é o desenvolvimento do atleta, fora dos meios formais de ensino. A famosa pelada na rua, os jogos lúdicos, que carecem de uma maior normatização, são sempre lembrados por quem defende o talento inato. Mas essa formação “na rua”, é uma grande influência do ambiente e de treinamentos para o desenvolvimento, o que na nossa visão, reforça o conceito do talento construído, diferente do natural.

Ainda temos, nessa mesma linha, os saudosistas, que alegam que no passado, os famosos campos de rua eram a “escola” ideal para o surgimento do atleta talentoso. Hoje temos mais informações, podemos atingir os objetivos, que não eram escritos, mas existiam na pelada, dentro de uma estrutura formal de treinamento, potencializando ainda mais os bons comportamentos adquiridos nas ruas e praças.

Pelé, Messi, Marta ou Falcão, todos são atletas talentosos de futebol ou futsal. Mas reitero que nenhum deles conquistou tal status por vontade divina ou uma “genética” diferenciada. Todos combinaram boas características físicas, mentais e cognitivas, com um treino e ambiente favorável ao desenvolvimento do futebol em seu mais alto nível. E o melhor disso tudo que cada um deles, teve uma abordagem diferente, deixando claro que não existem fórmulas prontas para o sucesso.

Fazendo um paralelo, com um exemplo de um gênio da matemática. Claro que essa pessoa tem condições preexistentes que facilitam, mas o treino e o ambiente que o cercou foi fundamental para sua formação. Se na matemática é assim, por que no futebol seria diferente?

 

 

Autor: Rodrigo Nunes
Coordenador Técnico das categorias de base do C.R. Flamengo
Sócio fundador do Instituto Pensando Esporte

 

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