Professores-Treinadores ou Treinadores-Professores?

Nas categorias de base, independente do esporte, temos a figura do treinador como central em qualquer discussão que possamos iniciar. O papel fundamental que esse profissional tem é claro, e com uma boa conduta e trabalho, o sucesso da formação de atletas é garantido. Mas e a abordagem desse treinador, como ela deve ser feita? Existe um modelo ideal? O profissional consegue (ou precisa) se descolar de ser um professor para ser um treinador?

Antes da polêmica, precisamos definir esses dois termos, professor e treinador. E não vou entrar no mérito da formação, ter ensino superior ou não, isso é assunto para outro post. Eles são diferentes? Se complementam? São rivais, dentro do esporte? Vejo a diferença entre eles, apenas a abrangência de cada um. Professor pode ser aplicado a inúmeros ramos e o termo treinador, entra de forma específica, na prática esportiva.

Se coloco que um dos objetivos do treinador, nas categorias de base, talvez o maior deles, seja ser um potencializador daquela criança, buscando desenvolver as habilidades, dentro da modalidade escolhida, posso dizer que o professor de matemática, dentro da sua sala de aula, tem os mesmos objetivos, certo?

Talvez, olhando a nossa prática, não seja tão certo assim. O que gera uma outra questão. Os objetivos das categorias de base estão alinhados com a prática educacional, em outros ramos? Por ser futebol, basquete ou golfe, existe a prerrogativa de ser tão diferente com a sala de aula? Se a resposta é sim, pode ser uma justificativa em buscar perfis de profissionais mais próximos de serem treinadores do que professores. Seguindo nessa mesma linha, isso é bom?

Professor carrega conceitos educacionais para a sua prática. E esses conceitos podem produzir uma metodologia mais adequada para a realidade onde será empregada. Correlacionando com outros profissionais que participam da mesma formação, podem gerar uma equipe de trabalho extremamente eficiente a disposição de jovens atletas. Então estamos buscando mais professores e menos treinadores? Ou treinadores com um perfil de professor?

Vamos voltar as definições dos termos em questão. Ser treinador não pode, e não deve, permitir deixar de lado o atuar do professor. O objetivo competitivo, presente nas categorias de base, não pode ser mais importante, que possa dar um salvo conduto ao treinador para que a sua prática não esteja embasada didaticamente. O querer vencer tem que ser um aspecto para que o treinador atinja seus objetivos, individuais e/ou coletivos, sem atropelos, erros ou avaliações.

Escuto muito sobre os objetivos coletivos do treinador, indo ao contrário dos professores. Não consigo ver isso, como uma causa de objetivos diferentes em ambos. Na verdade, o professor em sala de aula, por exemplo, poderia incorporar o pensar coletivamente das categorias de base. Temos as avaliações, certo? Na sala de aula, elas são individuais, e em termos gerais, sem qualquer relação entre elas. Por que não um objetivo para toda a sala? Ações em grupo ou com todos os alunos, na busca de uma melhor nota de toda a turma, poderiam ser incentivadas, carregando conceitos tão presentes nas quadras e campos, como cooperação e trabalho em equipe.

Numa sala, como numa equipe de futsal, por exemplo, temos alunos/atletas excelentes em um aspecto e que possam ter deficiências em outro. Temos um ótimo driblador, que tem dificuldade em finalizar as jogadas, da mesma forma que temos um aluno excelente em matemática, que não vai tão bem em história. No esporte, o jogo coletivo oportuniza que os indivíduos se complementem e ajudem uns aos outros, algo que ainda temos dificuldade em ver nas salas de aula.

Concluindo, o treinador deverá sempre, por toda a sua prática dentro do esporte, carregar conceitos que estão exemplificados nos milhões de professores que existem. Não podemos e não devemos dissociar esses termos nunca. Uma das minhas referências na formação esportiva, o eterno mestre Ricardo Lucena, tinha uma frase sensacional: “Hoje eu estou treinador, mas sou professor.” Por mais professores, não aqueles que apenas têm o título, mas que tenham a alma educacional, nas quadras, nos campos, na vida!

 

 

Autor: Rodrigo Nunes
Coordenador técnico das categorias de base do C.R. Flamengo
Sócio fundador do Instituto Pensando Esporte

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