Treinamos para jogar ou treinamos para melhorar?

O blog do IPE vem abordar o treinamento dentro das categorias de base. Sobre a sua importância, acredito que seja claro seu protagonismo, mas a ideia é ir um pouco mais a fundo na questão. Lembrando uma grande frase do craque Romário, “treinar pra quê?”, que chegou a virar uma música, queremos discutir com você os motivos desse treino, em que essa prática quase que diária, está conduzindo nossos pequenos jovens, aspirantes a atletas.

Se levarmos o conceito de treinamento para o teatro, por exemplo, podemos identificar bem que o treino é um ensaio do que será apresentado na peça, que torna-se o jogo, dentro do âmbito esportivo. Pois bem, um bom ensaio então é o que fica mais próximo da realidade da peça possível, certo? Será que nossos treinos, nos campos e nas quadras, estão atrelados ao que vamos encontrar no jogo?

Se assumirmos como verdade que meu treino tem que estar contextualizado com o jogo, posso afirmar que sua principal função é preparar os atletas para a partida. Mas, dentro das categorias de base, é um caminho eficaz? Será que, durante as atividades que proponho, busco o melhor desempenho no jogo ou procuro melhorar a capacidade daquele ou daqueles atletas? Ou o jogar melhor significa estar melhor formado dentro do esporte?

Bem, acho que já fizemos perguntas demais… Vamos às respostas.

Quando perguntamos no título se treinamos para jogar, entendemos que esse treino tem como objetivo principal ressaltar a estratégia a ser aplicada, não só na próxima partida, mas como dentro do modelo de jogo, que o treinador ou o clube acreditam. Isso pode limitar a formação do atleta? Dependendo do foco, pode sim. De uma maneira geral, o jogo nas categorias de base carrega uma série de situações-problemas, de ordem técnica, tática, física e psicológica, que os jovens atletas ainda não têm capacidade nem maturidade para solucionar.

Caso o treinador vise somente ao jogo, pode ocorrer uma série de atropelos, onde-se dá uma ênfase maior em conceitos e comportamentos, que talvez, sem a presença do jogo, não tivessem tanta importância e poderiam ser trabalhados em idades maiores.

Por outro lado, sem a presença do jogo, podemos ter prejuízos nessa mesma formação esportiva. A competição traz aspectos que são praticamente impossíveis de recriarmos, portanto a vivência desse jovem, adquirindo uma experiência, é fundamental para a formação do mesmo. Nesse dilema, acredito que o equilíbrio entre o treinar para jogar e treinar para formar seja a fórmula de sucesso a ser seguida.

Colocando em prática esse equilíbrio, estou fazendo um trabalho melhor? Na minha opinião, sem dúvidas, mas acredito que exista ainda um método mais eficaz. Afinal, formamos o atleta para quê? Para tornar-se um profissional do esporte que vai jogar, durante toda a sua carreira. O meu treino tem que incluir os dois aspectos que vimos antes, mas a melhor abordagem é construir uma prática que atenda aos princípios formativos do jovem, usando o jogo em si, como um catalisador para que essa engrenagem funcione ainda melhor.

Se eu quero melhorar o gesto técnico do passe do meu atleta, temos que abordar contextualizando esse gesto, com a sua aplicação no jogo. Construo um ou mais exercícios para que possa potencializar a experimentação do passe, mas não posso dissociar esse elemento técnico do que será encontrado pelo atleta durante os jogos.

Claro que quanto menor a idade, essa contextualização em relação ao jogo é menor, já que, mesmo em torneios adaptados a essas idades, o jogar exige muito além da capacidade do atleta, em modo geral. Mas com o passar dos anos, eu posso ter um foco bem individualizado num determinado atleta, para a correção de algum aspecto, e exercitar essa melhora dentro do contexto coletivo, onde está inserido o meu modelo de jogo.

É difícil? Bastante. No entanto, a cada dia que passa, a informação e sua disseminação são mais facilitadas, ajudando bastante o treinador no planejamento de seu treino. Se quero jogar com passes curtos e aproximação dos jogadores, criando linhas de passe, tenho que buscar moldar isso no meu treino e digo não só na questão tática, mas desde do meu aquecimento até o fim da atividade, e ainda por cima, passar um conteúdo aos meus atletas que sirva para vencer o jogo domingo e que ele possa carregar esse conceito para a sua formação.

Um dos maiores desafios dos treinadores, independente das idades em que atuam, é conseguir enxergar os princípios nos quais acredita, trabalhados no treino, de forma clara no jogo. Tenho que jogar da forma que eu treino, senão, o que adianta? Escutei milhões de vezes a frase que “Treino é treino, jogo é jogo” e a cada dia que passa, reforço a minha certeza que ela está errada.

Treino e jogo são duas partes que se completam, construindo uma melhor formação para o jovem atleta. São duas partes de uma coisa só. Sempre. Em qualquer idade. Em qualquer local.

 

Autor: Rodrigo Nunes
Coordenador técnico das categorias de base do C.R. Flamengo
Sócio fundador do Instituto Pensando Esporte

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