Especializamos precocemente?

Muito se discute sobre a especialização precoce dos jovens atletas, de uma maneira bem ampla, abrangendo diversos esportes. Modelos e classificações por faixas etárias são comuns, buscando sempre otimizar o processo de ensino aprendizagem, dentro das idades. Mas a questão fica: atualmente nós especializamos precocemente?

Falando de futsal, é comum iniciarmos o processo de aprendizado com 4, 5 anos de idade. Claro que, neste momento, a principal ideia do esporte é divertir e buscar a experimentação de movimentos, usando o futsal com veículo dessa formação motora mais ampla.

Gallahue (2008) construiu a sua famosa ampulheta de desenvolvimento motor e determina que, dos 2 aos 7 anos, as crianças estão na fase motora fundamental, que pode ser considerada uma ótima fase para o aprendizado de movimentos, incluindo seus 3 níveis (inicial, elementar e maduro).

Mas será que as demandas, não só competitivas, mas do esporte como um todo, inserido num contexto cultural do futsal, respeitam essa curva de aprendizado? E se temos uma resposta negativa, gera um prejuízo ao pequeno atleta?

Inseridos num contexto de formação desportiva, deixando um pouco de lado, os outros objetivos da prática esportiva, como ludicidade, prazer e melhora da saúde, a especialização precoce se torna mais presente e “comum” aos nossos olhos.

Podemos abordar por 2 caminhos essa especialização. Um deles é a própria necessidade do desporto, em buscar jovens valores, e lança-los ao alto rendimento cada vez mais novos. Se temos jogadores, sejam de futsal ou de futebol de campo, com performances excelentes, aos 17, 18 anos, podemos acreditar que, para atingir esse nível de atuação, o processo de especialização precoce foi posto em prática e deu certo!

Um outro caminho que acelera precocemente o processo de ensino aprendizagem, é o objetivo de buscar vitórias, durante a construção, que possam prejudicar essa formação. Buscar vitórias e competir, por si só, não é um malefício, mas será, se essa busca prejudica uma boa caminhada de aprendizagem.

Saindo um pouco do futsal, podemos ver nos esportes olímpicos, a presença de diversos atletas, no mais alto nível, competindo aos 15, 16 anos. Na natação, ginástica artística e até no atletismo, temos diversos exemplos de campeões e campeãs olímpicos em idades abaixo dos 21 anos, o que indica a presença dessa especialização precoce, fundamental para que esse atleta chegasse a aquele resultado desportivo.

Podemos seguir num caminho onde, tratando-se de pequenos jovens atletas, que estão num processo de formação desportiva, visando atingir um alto nível e por consequência, uma carreira profissional no esporte, esses atletas possuem características físicas diferenciadas dos demais, portanto, as regras e tabelas usadas para a população em geral, não se aplicam a eles.

É uma linha de pensamento um tanto quanto ortodoxa, mas parte de uma premissa que parece bem fundamentada. Se temos crianças, que demonstram uma capacidade de executar algum esporte, melhor do que a grande maioria, e por isso, são convidadas a buscar uma formação esportiva mais especializada, temos uma indicação de que aquele grupo de atletas, teoricamente, tem condições de que esse aprendizado esportivo seja mais aprofundado, e em diversas vezes, acima do que é indicado, pelos estudos de aprendizagem motora e afins.

A todo momento, também temos que levar em consideração que o atleta não é só um elemento físico. Aspectos cognitivos e psicológicos, principalmente, possuem uma relevância gigantesca na formação dessa criança. Portanto, qualquer elaboração de metodologia nos trabalhos de base do futsal, e do esporte em geral, devem ser pensados, juntamente com a parte mental, que também está em formação.

Atualmente, posso afirmar que, sem um planejamento diferenciado do usual, onde seja crucial acelerar diversas etapas do processo de formação, não conseguimos entregar um atleta ao alto nível, contemplando as demandas do esporte hoje em dia. E tudo isso é possível, sem trazer prejuízos para esse jovem atleta em formação.

Chegamos ao fim, trazendo talvez a palavra mais importante desse texto: equilíbrio.

Sem ele, qualquer processo de formação desportiva, por mais bem elaborado que tenha sido, terá efeitos negativos nesses atletas. Um dos ditados mais antigos que ouvimos é que “muita água também mata a planta.” Projeto bem fundamentado, coerente com a faixa etária, mas sem deixar de se adequar ao grupo de atletas que está participando, atendendo as demandas competitivas sem exageros e criando um ambiente saudável para todos os envolvidos. Com tudo isso funcionando na prática, tenho certeza que a formação desportiva, na busca de atletas de alto nível terá sucesso.

 

 

Autor: Rodrigo Nunes
Sócio Fundador do Instituto Pensando Esporte

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