Fui campeão no mirim. E aí?

Um dos debates constantes quando falamos de categorias de base, seja do futebol ou de qualquer outro esporte, é a questão da competição. Não quero aqui entrar no mérito de jogar ou não jogar, gostaria de abordar outro aspecto sobre o tema. O resultado do jogo ou competição, vale de alguma coisa?

Duas semanas atrás, Ray Allen, bicampeão da NBA, já aposentado, postou um vídeo de seus dois filhos, numa disputa de arremessos de basquete. Logo abaixo do vídeo, escreveu o seguinte texto: “Perder é tão importante quando se é uma criança. Adoro ve-los perder, porque isso faz com que eles tentem mais, lutem mais, queiram treinar ainda mais.”

Centenas (para não dizer milhares) de crianças e adolescentes aparecem nas redes sociais, com medalhas e troféus de centenas (para não dizer milhares) de torneios esportivos, durante todo o ano. Belas fotos nas redes sociais, egos inflados, comentários positivos, são as consequências dessas fotos. Mas, e ganho real, será que aconteceu?

Henrique Almeida, atacante brasileiro, foi campeão mundial sub 20 com a seleção brasileira em 2011, sendo eleito o melhor jogador da competição e artilheiro do torneio, com 5 gols. Na época, jogava no São Paulo FC e passou por uma dezena de clubes, no Brasil, Portugal, Espanha e Turquia. Atualmente, joga na série A do Brasileirão, pela Chapecoense. Podemos dizer que ele deu certo? Claro! Com 27 anos, virou jogador profissional de futebol. Mas será que os resultados na base geraram uma expectativa mais alta?

“Eu preciso ter uma sequência de jogos. A paciência comigo não é a mesma do que com os outros jogadores, a cobrança é muito maior, tenho obrigação de fazer gol todo jogo. Se um dia tiver uma sequência, vou conseguir ir bem e fazer gols.”, disse Henrique, em 2015, na sua apresentação no Coritiba.

Costumamos ouvir e ler, que precisamos construir gerações vencedoras. Mas ganhar títulos na base definem gerações vencedoras? Muito se fala sobre a geração de nascidos em 1970/1971 do Flamengo, que venceu a Copa São Paulo de Juniores em 1990. Buscando na história, seguem diversos títulos da mesma geração nas categorias infantil e juvenil. Mas o conceito de geração vencedora é usado por outro tipo de vitória…

Júnior Baiano disputou uma Copa do Mundo, Marcelinho Carioca e Paulo Nunes foram campeões da Libertadores da América por outras equipes. Piá, Nélio e Marquinhos estiveram no elenco rubro-negro campeão Brasileiro de 1992. Djalminha brilhou durante quase uma década em campos da Europa. Eles venceram dentro da profissão, jogador de futebol. Será que terem sido campeões no infantil influenciou alguma coisa?

Perguntando para profissionais da área, acredito que a grande maioria irá concordar que a competição nas categorias de base não pode ser avaliada com o mesmo grau de importância do que no esporte profissional. Mas com que grau iremos avaliar? Ou se, efetivamente, vamos avaliar?

Culturalmente, a questão do vencer, seja no esporte ou fora dele, sempre foi muito forte na vida da maioria das pessoas. Vencendo, sou bem sucedido, perdendo, sou um fracasso. No esporte, e o futebol é um retrato gigantesco disso, não é diferente. Mas se a minha vitória é formar um atleta para o alto rendimento, é melhor que ele ganhe ou perca jogos no processo? Ou o resultado faz alguma diferença?

Para o atleta em formação, podemos discutir a importância de vencer na base. Mas para o profissional que trabalha na base, será que a relação títulos – crescimento na carreira, é mais clara? E será que ela é a maneira mais correta de avaliar um profissional? Se alguém respondeu que não, se nem para a comissão técnica, o resultado é balizador de avaliação fidedigna, por que será para uma criança de 12 anos?

Não quero aqui renegar por completo o resultado de um jogo ou campeonato, na formação de um jovem atleta. Acredito que isso seja impossível. Mas, a cada dia que passa, tenho a certeza que o resultado importa cada vez menos. E que se temos um pensamento e planejamento a longo prazo (como tem que ser feito para a formação de um atleta, que dura mais de 10 anos), esse resultado importa muito pouco.

Ah, mas a cada ano, temos diversos jogadores de futebol indo para os grande centros europeus, valendo quantias cada vez maiores! Sim! E me arrisco a dizer que, se fizéssemos o processo de formação mais pensado e planejado, teríamos muito mais jogadores, gerando muito, muito mais dinheiro.

 

 

 

 

Rodrigo Nunes
Sócio Fundador do Instituto Pensando Esporte

  3 comentários sobre “Fui campeão no mirim. E aí?

  1. Rodrigo Tupinambá
    5 de agosto de 2019 às 19:53

    Muito bom!

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  2. Rodrigo Tupinambá
    5 de agosto de 2019 às 19:54

    Excelente, xará!

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  3. Rodrigo
    5 de agosto de 2019 às 21:58

    Excelente.
    Esporte vai além de vencer e vencer.

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