O mês de nascimento e o futebol de base no Brasil

A cada dia que passa, o futebol recebe ainda mais novidades tecnológicas e educacionais, para que tenhamos cada vez mais estudos sobre o esporte e assim, melhorar seus treinos e jogos. Ao longo desse passar dos anos, outro aspecto pouco discutido também sofreu mudanças, e podemos chama-lo de perfil de jogador.

A definição de perfil no dicionário diz: “contorno gráfico de uma figura, de um objeto, visto apenas por um dos lados.” Dentro do futebol, acredito que não cabe de forma literal, mas podemos aproveitar bastante esse conceito dentro da esfera esportiva. Podemos entender que esse contorno de uma figura, seja a representação física desse atleta, um “modelo ideal” de atleta de futebol.

Será que em 30, 40 anos esse perfil sofreu alguma mudança? Se pensarmos que o futebol passou por diversas mudanças nesse período, fica claro que uma delas seja esse perfil. Temos como ponto comum que o treinamento contribuiu e contribui para essa transformação, mas se resume apenas a treinos mais modernos? Ou o processo de captação e seleção de atletas também se inclui nessa mudança?

Trazemos outro termo ao debate. Idade relativa. As categorias de base do futebol são organizadas e regulamentadas usando o ano-calendário como base, de janeiro a dezembro, quando falamos de Brasil. Então temos atletas com quase 1 ano de diferença entre seus nascimentos, mas agrupados numa mesma categoria, já que nasceram no mesmo ano. Essa diferença chamamos de idade relativa.

Como estudamos esse fenômeno? Usando como fonte os sites da FIFA e da CBF, tabelamos todos os jogadores convocados para as seleções brasileiras sub 17, sub 20 e adulta, que disputaram os campeonatos mundiais organizados pela FIFA, separando-os em quatro grupos:
– Nascidos em janeiro a março
– Nascidos em abril a junho
– Nascidos em julho a setembro
– Nascidos em outubro a dezembro

Falando de seleção principal, começamos nosso estudo a partir do elenco de 1950 até a última copa, em 2018. Levantamos os dados das 18 convocações e dividimos todos os jogadores nas 4 faixas descritas acima, de acordo com a data de nascimento. Fica claro uma diferença entre os períodos, mas dentro de uma margem pequena. De janeiro a março, temos 28,68% dos convocados, sendo este o maior percentual. De abril a junho, são 27,68%, de julho a setembro, 24,69% e o último período, de outubro a dezembro, apresentou o menor valor, com 18,95%.

Quando analisamos as categorias sub 20 e sub 17, fica bem claro uma grande diferença nesses valores. O primeiro mundial sub 20 organizado pela FIFA, aconteceu em 1977, desde então, 32,55% dos jogadores convocados nasceram entre janeiro e março. Quando olhamos para a seleção Sub 17, essa diferença fica ainda mais clara. Foram 15 participações brasileiras em mundiais, desde 1985, e dos 289 atletas convocados, 43,6% são nascidos no primeiro trimestre do ano, 15% a mais do que vimos na seleção principal.

Olhando mais de perto a seleção sub 17, podemos identificar uma tendência, com o passar dos anos. Agrupando as sete convocações nos mundiais da categoria, de 1985 até 1999, o percentual de nascidos no primeiro trimestre é de 34,13%, menor do que a média total. De 2001 até 2009, esse valor sobe para 48% e nas últimas três Copas do Mundo Sub 17 (2011, 2013 e 2015), chegamos a incríveis 55,56% de atletas convocados, que nasceram até o dia 31 de março. O último título brasileiro na competição aconteceu em 2003.

No sub 20, existe um maior valor visto no primeiro trimestre, mas mais próximo ao que podemos ver na seleção principal. Entre 2001 e 2015 (7 participações em mundiais, com 4 finais e 1 título), vimos que 34,27% dos convocados, nasceram entre janeiro e março. Talvez influenciados pelos números do Sub 17, o elenco sub 20 de 2015, último mundial, tivemos 47,62% de atletas no primeiro trimestre.

Escutamos sempre que as categorias de base têm como função principal, a formação de atletas para o nível profissional. E acreditamos muito nisso. Nas convocações dos mundiais de 2011 e 2013 no Sub 17, não tivemos nenhum atleta nascido no último trimestre (outubro a dezembro). Podemos dizer então que, jogadores que hoje, em 2019, têm entre 23 e 25 anos e nasceram nesse trimestre em questão, podem chegar a seleção principal, mas não representaram o Brasil em um mundial na categoria sub 17. Da mesma forma que, diversos atletas que estiveram presentes em uma competição mundial de base, não chegarão a jogar um mundial na seleção principal.

Claro que as razões desse fenômeno carecem de muitos mais estudos sobre o tema. A última convocação da seleção Sub 17, que participará de mais um mundial este ano, com o Brasil como sede, foi feita em setembro, com 24 atletas. 13 deles nasceram no primeiro trimestre, 54,17% da lista. Somando o segundo trimestre, são mais 5 atletas, então temos 18 dos 24 convocados, nascidos entre janeiro e junho, incríveis 75% do total.

Teoricamente, um atleta nascido em janeiro tem vantagem sobre outro, nascido em dezembro do mesmo ano. Com 11 meses a frente, esse atleta pode ser mais desenvolvido fisicamente e cognitivamente, possibilitando uma melhor performance no futebol, por exemplo.

Algumas ações já foram discutidas pelas entidades do esporte e por estudiosos do futebol, como dividir o ano de nascimento em 2, separando nascidos no primeiro e segundo semestre nas competições. Seria como ter um torneio para nascidos em 2007.1 (janeiro a junho) e outro 2007.2 (julho a dezembro). Outra ideia é que o atleta mude de categoria apenas quando fizesse aniversário. Nesse modelo, um atleta de dezembro de 2008, seria sub 11 apenas no último mês de 2019, e teria jogado no Sub 10 praticamente o ano todo.

Se temos a maioria dos atletas, nas seleções de base do Brasil, nascidos entre janeiro e março e a causa disso é uma predileção por jogadores mais desenvolvidos fisicamente do que outros, não podemos afirmar. Também podemos discutir que, se isso acontece na seleção, será uma consequência do que vemos nos clubes, que captam, treinam e avaliam esses atletas?

Outra hipótese é que, os clubes selecionam esses atletas nascidos no primeiro trimestre, para atender as demandas competitivas que temos hoje. Então se temos torneios e competições que realçam o desenvolvimento físico, ao invés do técnico e tático, será que esse modelo competitivo é o ideal para a formação de atletas?

Hoje, pelos números que foram mostrados, podemos afirmar que, estatisticamente, duas crianças que estão em algum clube de futebol, dentro das categorias de base, uma nascida em janeiro e outra em dezembro, não têm as mesmas chances de chegarem a uma seleção de base brasileira. Precisamos investigar as razões. E rápido.

 

 

 

Rodrigo Nunes
Sócio Fundador do Instituto Pensando Esporte

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