O curioso caso de Jamie Lawrence e a formação no futebol – Parte I

O texto de hoje é o relato real feito no site inglês The Correspondent, muito bem escrito pelo jornalista holandês Michiel De Hoog. Ele traz a saga de Jamie Lawrence, um jogador profissional de futebol, que também representa a seleção de País de Gales. A história relata todo o processo feito por Jamie e seu pai, pelas mais diversas categorias e clubes de futebol, de vários países.

O texto original é bem longo, então separamos a história em 2 partes, e trazemos a primeira para todos vocês. Deixo aqui uma opinião bem pessoal que, com todos os estudos que temos hoje, a gama de informações a disposição de todos os profissionais das categorias de base, a história de Jamie Lawrence é um exemplo da realidade atual, brasileira ou internacional, de como ainda temos um longo caminho a percorrer.

 

“O Curioso caso do futebol internacional que ninguém ficou sabendo (porque ele nasceu no mês errado)”

 

Podemos considerar que foi a convocação mais estranha para uma seleção nacional na história do futebol.

Até o dia que Jamie Lawrence foi convocado para a seleção de País de Gales, ninguém no país o conhecia e ele não conhecia ninguém no país. Jamie Lawrence não nasceu no País de Gales, nunca jogou lá e não tem família no país. Ele não fala a língua oficial, nunca jogou nas seleções de base do País de Gales e nunca teve um contato com a Federação de futebol do país.

Jamie Lawrence nunca esteve no País de Gales.

Era algo estranho, ainda mais para um país sem muitas opções de jogadores para serem convocados. Toda federação deseja manter um acompanhamento de todos os seus atletas, ainda mais uma que deseja enfrentar as grandes potências mundiais do futebol. Ainda mais se falarmos sobre um zagueiro canhoto, algo que sempre está em falta no esporte. E mesmo assim, ninguém sabia quem era Jamie Lawrence.

Na tarde do dia 5 de novembro de 2018, Ryan Giggs, ex-jogador do Manchester United e técnico da seleção do País de Gales, anunciou sua lista de convocados para uma partida decisiva contra a Dinamarca, válida pela Liga das Nações. A folha distribuída aos jornalistas presentes apresentava um J.Lawrence. Os repórteres começaram a conversar entre si e a conclusão era que tivemos um erro de digitação, o correto era T.Lawrence, atacante do Derby County, time da segunda divisão inglesa. Mas na lista estava lá, T.Lawrence também. Então quem era o J?

O Google nos respondeu que J.Lawrence era um zagueiro do clube belga Anderlecht. E era só isso.

O comentarista da BBC, Rob Phillips, começou a entrevista da forma tradicional, perguntando sobre a estrela do time, Gareth Bale, craque do Real Madri. Lá pela quarta, quinta pergunta, Phillips disparou:
– “Você fez todos aqui pesquisarem o google sobre James Lawrence, do Anderlecht. Pode nos dizer como você chegou até ele?
– “Ficamos sabendo dele nos últimos seis meses. Ele tinha ficado perdido no processo.”, respondeu Giggs.
– “E como ficou sabendo dele
?”
– “Fui avisado por um funcionário da federação do País de Gales.”, completou Giggs.

Seguimos vasculhando o google, que não nos deu muita informação. Uma entrevista rápida no site do Anderlecht, algumas matérias em eslovaco, quando Jamie jogava no AS Trencin e muitas outras sobre outros Jamie Lawrence muito mais famosos. Na época, os torcedores chegaram a criar uma hashtag famosa no Twitter, #jamielawrencefacts , na busca de maiores informações.

Ao mesmo tempo, em Bruxelas, Jamie Lawrence chorava de emoção por sua primeira convocação à seleção nacional. Em Amsterdã, Steve Lawrence, pai de Jamie também chorava de emoção, e finalmente podia confirmar o que sempre acreditou. O excepcional talento do filho para jogar futebol.

E essa história começou quando Jamie tinha 3 anos. Steve o via jogar contra meninos mais velhos, e ter sucesso. Quando Jamie tinha 6 anos, já jogava contra e vencia jogos contra meninos de 9 anos. Então aos 7 anos, Jamie se tornou um atleta da Arsenal Advanced Academy, uma escola particular de futebol, onde os olheiros do Arsenal costumavam captar jovens jogadores para o clube.

Na primavera de 2000, Steve estava vendo um treino do filho, quando um outro homem chegou a seu lado e teve uma conversa que mudou pra sempre a vida de Lawrence pai.

– Aquele é o seu filho?
– Sim.
– Bom jogador, talentoso. Quando ele nasceu?
– 22 de agosto.
– Ah, que pena…
– 
Oi?
– 22 de agostoEle não vai conseguir se tornar um jogador profissional de futebol.

Sem entender muito bem aquele papo, Steve chegou em casa e começou a procurar informações sobre aquele tema. Com o google ainda engatinhando, teve dificuldade na busca, mas depois de muito tempo, achou um artigo: “Sucesso no hóquei no gelo e sua data de nascimento. O efeito da idade relativa.”

O artigo trazia a informação que a grande maioria dos melhores jogadores de hóquei do país nasceram nos meses de janeiro, fevereiro ou março. Os autores suspeitavam que isso acontecia pela reunião de jovens atletas e sua separação de acordo com o ano de nascimento.

O artigo fazia sentido para Steve, mas ele pensou: “Ah, mas isso é hóquei no gelo, lá no Canadá, não tem nada a ver com futebol.” Alguns meses depois, Steve descobriu um artigo inglês, que chegava na mesma conclusão do canadense. A diferença era que o calendário usado na Grã Bretanha seguia o ano escolar, portanto começava em setembro e terminava em agosto. No Canadá, o início era em janeiro e seu fim, em dezembro.

Exemplificando. Uma criança na Inglaterra, que nasceu em setembro de 2010, jogava no mesmo time e na mesma liga, com e contra outras crianças que nasceram entre setembro/2010 até agosto/2011. Alguém nascido um mês antes, em agosto/2010, jogava em uma outra categoria, que começava em setembro de 2009.

Uma dúvida surgiu na cabeça de Steve. Será que os treinadores e olheiros não sabiam dissoSerá que eles tinham a consciência que estavam ignorando quase metade das criançasE logo após, o maior medo: “O que será da vida esportiva do pequeno Jamie?”

Não demorou muito para Steve começar a ter respostas. No verão de 2001, Jamie foi convidado a participar de um torneio com o time sub 9 da academia do Arsenal. O time era qualificado. Por exemplo, no comando do ataque, tinha um certo Harry Kane, hoje craque do Tottenham Hotspur e capitão da seleção inglesa. Jamie jogou muito bem, mas no ano seguinte, algumas coisas começaram a mudar…

No sub 10, Steve via alguns atletas assinando contratos, recebendo chuteiras e uniformes, os treinadores do Arsenal dando constante feedback sobre o desenvolvimento das crianças, e Jamie estava fora disso tudo. “Eu estava sempre no Arsenal, mas nunca fui realmente uma parte do clube.”, disse Jamie, lembrando aquele época.

Em 2003, Steve e Jamie foram chamados para uma reunião na academia e informados que o jovem não seguiria mais no elenco. Steve logo lembrou do artigo: “Estava escrito! É o efeito da idade relativa na prática.” Ele retornou ao artigo e leu que muitas crianças que “nasceram no mês errado” não geravam grande expectativas nos treinadores e as constantes dispensas causavam uma enorme frustração neles e muitos desistiam da prática esportiva. Steve fez uma promessa a si mesmo, que não iria deixar isso acontecer com o jovem Jamie.

Uma das ações de Steve foi redigir uma carta para a Federação Inglesa de Futebol, alertando-a dos efeitos da idade relativa. A mesma segue sem resposta até hoje. Essa carta foi a primeira de muitas, para a federação e também para a comissão européia do futebol. Esta última teve uma resposta, pedindo uma alternativa para Steve. Após vários meses desvendando o mundo da informática, ele desenvolveu um programa que calcula uma idade média, para cada time, levando em conta o mês e não só o ano de nascimento. Steve ainda aguarda uma posição da comissão.

Voltando a 2003. Após a liberação, Jamie jogava em clubes locais até que um olheiro do Queens Park Rangers, tradicional clube inglês, convidou-o para as categorias de base. A experiência durou um ano, com Jamie ficando praticamente no banco em todos os jogos. Parecia que a “carreira” do pequeno Jamie iria acabar antes mesmo de começar…

CONTINUA…

 

 

Rodrigo Nunes
Sócio Fundador do Instituto Pensando Esporte

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